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De qualquer jeito, não!

Fiquei mais parado do que olho de santo quando ouvi a proposta da moça para contornar o problema do elevador quebrado que me levaria ao estúdio de gravação da TV: “Fique tranquilo. Você vai subir de qualquer jeito. A gente te pega no colo, faz um mutirão para ajudar, chama o bombeiro…”.
Assim, no jeitinho, já fiz cada barbaridade que meu juízo dói só de pensar. Uma vez, inventei de embarcar num trem em Salamanca, na Espanha, rumo a Lisboa, em Portugal. Não me informei direito e o vagão que escolhi não era acessível para cadeirantes. Mas, com uma mãozinha daqui e outra dali, embarquei.
O cobrador me conduziu até a cabina e, como o lugar era muito estreito, teve de levar minha cadeira para longe. Ao lado de quatro alemães, que, pelos olhos vermelhos, já tinha viajado um bocado, passei horas de tensão pensando em como sairia daquele lugar.
Diferentemente do que pensam alguns, é raro o cadeirante que consegue “dar uns passinhos”. O que eu faria para pegar a cadeira na hora de desembarcar? Cada vez que o trem parava, eu perdia um tufo de cabelo de tanto “nelvoso”. Porém, chegando a Lisboa, o cobrador gente fina se lembrou de mim.
Em outra situação, inventei de discutir com a mulher dentro da casa do sogro, onde só era possível entrar subindo uns 20 degraus. Imagina o meu carão ao pedir, “o senhor me dá uma mãozinha para descer que quebrei o pau com sua filha”?
Claro que, se as pessoas que precisam de acessibilidade forem esperar o mundo ficar “bacanudo” para que enfrentem as ruas, vai rolar um cansaço. Acontece que se expor a condições inseguras de ir e vir também não me parece solução.
Imagine eu topando subir nos braços do bombeirão até o quarto andar da TV? Ou eu afetaria a coluna do cidadão boa gente com o peso do meu corpinho, ou comprometeria o coraçãozinho do caboclo, pois sou muito romântico. Sem falar nos riscos que tocavam a mim.
Um caso mais grave de arapucas de condições pouco amistosas de acessos veio à tona no mês passado. Um tiozinho de 71 anos se feriu gravemente ao capotar dentro de um equipamento da Infraero usado para embarcar no avião pessoas em cadeira de rodas ou que tenham dificuldade de subir escadas.
Quando o colocaram no trambolho, só esqueceram a regra básica de uso para qualquer veículo: afivelar o cinto de segurança. Numa freada brusca, afinal, tudo está sempre atrasado, lá se foi a cabeça do tiozinho de encontro ao chão. Diante da alardeada “loucura dos aeroportos brasileiros”, internaram faz tempo o tratamento digno às pessoas.
Tentar dar um jeito para incluir é inegável sinal de boa vontade. Mas como um aluno surdo vai aprender numa escola onde ninguém fala sua língua? Como um cego vai conseguir desfrutar da biblioteca sem recurso em braile? Como subir uma rampa com ângulo de inclinação beirando os 90 graus? Como um idoso dançaria tranquilo num salão com piso escorregadio?
A engenharia, a arquitetura, as normas técnicas, a ciência, o bom-senso estão aí para ajudar a criar soluções de integração para o pessoal sem que ninguém tenha de viver aventuras forçadas. Ah, e os técnicos de elevadores também. Antes de me pegarem no colinho, arrumaram a caixona que sobe e desce e consegui participar da gravação em segurança, todo lindo.
texto de Jairo Marques publicado na Folha de S. Paulo em 04.01.2011
Jairo Marques, 35, é chefe de reportagem da Agência Folha. Nasceu em Três Lagoas (MS). É cadeirante desde a infância.

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